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terça-feira, 1 de novembro de 2011

Três vezes Morrigan




Morrigan...

Muitos pronunciam seu nome, muitos clamam ser seus súditos.
Poucos a conhecem.

Muitos pensam que ela é uma divindade sanguinária, que exige sacrifícios de animais ou práticas doentias de automutilação. Esses não conhecem a Morrigan; nada sabem dela. Talvez a confundam com alguma outra divindade não-céltica, distorcida e cultuada por mentes perigosas.

Muitos acham que encontrarão a Morrigan em modismos góticos e ambientes dark... Talvez apreciem a morbidez pela morbidez – práticas modernas que nada têm a ver com a Morrigan.

Essa não é a Morrigan.

A Morrigan é a Grande Rainha. Ela é a majestade da terra;
- a Vida, e a preservação dela;
- a Beleza, e o esplendor dela;
- a Sabedoria, e a fonte dela.

Deusa Eriu ou Macha, Ela é a própria terra, mãe de todos os seres vivos. Ser filho dela é compreender a Vida. É encantar-se com a beleza de campos floridos, lagos cristalinos e do sol dourado sobre as plantações. É correr como os cavalos e voar como o vento. Conhecer a Morrigan é sucumbir prazerosamente à delícia dos frutos da terra, do leite recém-ordenhado, da carne suculenta no prato, do peixe fresco do mar.





Maga e donzela, Ela é a sedutora de Deuses e heróis. Por meio de encantamentos, Ela se transmuta em toda e qualquer coisa, dobrando o mais valente dos homens, conquistando o maior dos Deuses. É com Ela que se casam os reis; sem Ela, não há realeza ou majestade. Ela é a Soberania. Unir-se à Morrigan é entregar-se à sua sedução. Aprender a seduzir, encantar, possuir – e deixar-se possuir.




Idolatrada por muitos guerreiros, a Morrigan é Badb Catha, a Guerra, o espírito da guerra. Espírito, alma, entendimento profundo, conhecimento sutil. Conhecimento de causa e efeito. Saber por que lutamos, pelo que vivemos e pelo que morremos. A certeza de uma causa nobre não nos permite hesitar nem mesmo diante da ferocidade da batalha.



O corvo fala, a sabedoria antiga revela: a Soberania não pode ser ameaçada. Pois dEla dependem a Vida e a liberdade dos filhos da terra. A coragem dos guerreiros é a Beleza preservada. A morte não é sinistra para os que compreendem a Vida. Morremos, e nossa alma segue vivendo, em cada morte e renascimento. E a Vida segue seu curso, como um rio de curvas infinitas, de luz e escuridão.


Bandruir - entre mundos, entre Samhain e Beltane, 2011.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Quem era a Senhora do Lago?


A Senhora do Lago é uma personagem freqüente nas lendas arturianas, mas de nomes variados: Vivian, Ninian, Nimue.

Originalmente, deve ter sido uma divindade celta das águas e também da luz solar. Mas a partir de qual deusa teria o mito da Senhora do Lago se desenvolvido nas lendas arturianas? Teria sido uma ou mais divindades celtas?

Roger Sherman Loomis (1927) pensava que o mito de Rhiannon contribuiu para o desenvolvimento do mito de Ninian, ou Nimue, ou Viviane, a Senhora do Lago (das lendas arturianas). Quanto a isso, não há um consenso. Jean Markale dedica um capítulo inteiro de seu livro Merlin, o Mago a investigar a origem desse intrigante mito feminino. E desfila todas as possibilidades: Aíne, Dana, Boan, Brigit, Rhiannon... etc.




A variação de nomes

Nas lendas arturianas, também variam os nomes dessa sedutora mulher com quem o mago Merlin está sempre envolvido, de uma forma ou de outra. Vivian, Ninian, Nimue, Ganieda, Gwendolena... O que todas elas têm em comum?

Jean Markale, historiador, filósofo, folclorista e especialista em mitologia celta, escreveu em seu livro Merlim, o Mago:

"A primeira dificuldade que se apresenta é saber qual o verdadeiro nome da companheira de Merlim. Nos poemas galeses atribuídos a Myrddin ela se chama Gwendydd e é irmã do poeta. Na Vita Merlini [Geoffrey de Monmouth, 1132] também é sua irmã e leva o nome de Ganieda. Nos outros textos ela não é mais irmã, e sim amante, e os nomes variam de uma obra para outra, de um manuscrito para outro, e por vezes no mesmo manuscrito.



Assim, no texto tardio de Thomas Mallory, A Morte de Artur, ela usa o nome de Nimue; no Huth-Merlin [manuscrito anônimo de 1250] é encontrada sob a forma de Niniene, e na Vulgata-Lancelote, tal como Sommer a publicou, podem-se encontrar os nomes Uiuiane e Uiniane (na Estoire de Merlin), Nymenche (no Lancelote propriamente dito) e Niniane (no Livre d'Artus). Em um mesmo manuscrito da Biblioteca Nacional de Paris, acham-se Uiuiane e Uiniane em fólios próximos, e, em outro, Uiniane, Uiane e Uiuiane. Levando-se em conta a similaridade do V e do U, e a confusão sempre possível entre U e N feita pelos sucessivos copistas, o nome da companheira de Merlim não parece ter sido logo fixado. Foi preciso esperar o século XVI, e principalmente o XIX, para que a forma Viviane se impusesse, sobretudo na França, em detrimento de todas as outras."

MARKALE, Jean. Merlim, o Mago. São Paulo: Paz e Terra, 1989. p. 83.



A relação entre todos esses nomes medievais e modernos e a mitologia celta (os deuses que os celtas cultuavam na Antiguidade) deve ser sempre lembrada. A figura da Senhora do Lago é, provavelmente, uma reminiscência de antigas deidades celtas femininas do céu, da luz solar e das águas. Ganieda, Gwenddyd, Gwendolena, Viviane, Niniane, Uiniane ou Nimue - nenhuma delas foi uma personagem histórica. Todas elas - certamente a mesma lenda - têm relação com o universo divino, feérico celta, onde o Lago é sempre um portal entre os mundos.